fotografia de moda, fotografia de marca, fotografia de comida, fotografia, direção de arte, direção criativa, food styling, fotografia de produto

fotografia de moda, fotografia de marca, fotografia de comida, fotografia, direção de arte, direção criativa, food styling, fotografia de produto

fotografia de moda, fotografia de marca, fotografia de comida, fotografia, direção de arte, direção criativa, food styling, fotografia de produto

Das mãos do artesão

Sempre fui apaixonada pela arte que as mãos podem produzir, pela tradição que se estabelece no fazer de uma comunidade, no conhecimento artesanal do que é passado de geração em geração… “Das mãos do artesão” é sobre isso, um testemunho, um resgate sobre mãos em sua plenitude… Essa arte que já não é mais propriedade de uma comunidade, dessa tradição que se tornou pertencente ao conhecimento de um par de mãos.

Leo é um dos meus melhores amigos e eu sempre ouvia dele que o   Luca produzia bolsas, bolsas artesanais em couro, num ateliê em casa…”ah, foi ele que fez essa aqui…” e me mostrava uma bolsa a tira colo, feita com muito esmero num design único. E era assim que eu conhecia o Luca, como o marido artista de um amigo artista. 
 
A primeira vez que eu me lembro de estar na presença do Luca com uma certa importância foi em um aniversário na casa do Leo. Entrei no apartamento já deslumbrada, um convidativo piso de taco tradicional do centro de São Paulo ja me dava a idéia de tirar os sapatos, e apesar da quantidade de gente e conversas de dentro, na porta eu já era recebida com uma brisa fresca e música alegre. Luca veio ao meu encontro descalço, enquanto Leo e eu ainda estávamos na porta. E foi assim que eu conheci o Luca anfitrião. 

Mais tarde ao ganhar um tour pelo apartamento, descobri que o frescor da casa vinha de uma quantidade absurda de plantas dentro do extenso apartamento, quase uma selva com todo tipo de verde e vasos que se pode imaginar, em todos os cômodos, cobrindo paredes, cantos, chão… Um contraste agradável com a selva de pedra que vivemos e o calor sufocante daquela tarde de sábado. E foi assim, que eu descobri o Luca sensível. 
 
No final do passeio, entrei num quarto que mais parecia uma sala, muito organizada, com algumas peças em couro penduradas na parede, uma mesa de centro, armários e máquinas de costura, uma preta bem antiga me chamava a atenção. “Ah, é aqui o ateliê do Luca…”, Leo me disse enquanto apreciava uma coleção de livros na estante, parecia impossível, estava tudo muito organizado e contrastava muito com a imagem de “artista bagunceiro” que eu havia criado na minha mente. E foi aqui que eu entendi o Luca artista.
Em 2019 eu planejava criar uma série de fotos de artistas que trabalhavam com as mãos, foi quando o Leo me contou que o Luca havia mudado seu ateliê pra um espaço fora de casa, um lugar independente num prédio antigo no centro de São Paulo. Na hora coloquei seu nome na minha lista de pretensão e já entrei em contato. Fiz uma primeira visita pra falar sobre o projeto e conhecer o lugar, saí de la apaixonada.
 
Voltei numa outra tarde, o tamanho das janelas me encantaram desde o início, entrava uma luz linda, quase dourada que contrastava com o material vermelho sangue que o o Luca havia escolhido pra essa tarde. Eu disse que ele podia fazer seu trabalho como sempre fazia que eu iria acompanhá-lo. É realmente apaixonante observar alguém se doando dessa forma, no final é a alma do artista que fica ali… 

O silêncio era preenchido e ainda assim quase uma meditação. Havia uma beleza impronunciável, um encantamento mudo. O contraste da cola com o cheiro de brisa quente que chegava da janela era o que me trazia de volta. Eu ia e vinha. As mãos que trabalham quase que mecanicamente mas que foram guiadas por uma alma demonstravam uma firmeza incomum. A precisão dos dedos manuseando sutilmente as ferramentas pesadas, quebravam o ar, mas sem manifestação. Havia uma agilidade de corte do que a primeira vez não se percebe a necessidade mas que trazia todo o sentido da peça, o punho que fazia a mão girar a máquina ponto por ponto sem a necessidade de um risco prévio, os pés que acompanham cada girar, cada linha que passa, e passa, e passa, era quase uma dança, embalados pelo ritmo da pintura nos acabamentos. 

E essa era a beleza das horas de doação de um ofício que mais é uma arte. Uma sensibilidade que ficou marcada num objeto. Na fiscalidade de uma energia de criação…
 
Obrigada aos artesãos que persistem!
plugins premium WordPress